De onde vem a quadrilha?
Não há dúvida que ela chegou no Brasil através
da França. O próprio pesquisador Mário de
Andrade a define como “dança de salão, aos
pares, de origem francesa e que no Brasil passou a ser dançado
também ao ar livre, nas festas do mês de junho, em
louvor a São João, Santo António e São
Pedro. Os participantes obedecem às marcas ditadas por
um organizador de dança. O acompanhante tradicional das
quadrilhas é a sanfona”. Os estudiosos e pesquisadores
musicais dizem que ela foi introduzida no Brasil no início
do século XIX, com a vinda da Corte Real Portuguesa e com
várias missões culturais francesas que estiveram
no país na mesma época. |
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A aceitação da quadrilha
foi instantânea, transformando-se quase numa dança oficial
de todos os saraus elegantes e, segundo relata Pereira da Costa em trabalho
sobre folclore, publicado em 1.908, a quadrilha já havia chegado
ao povo e se vulgarizado em 1.837.
Também Melo Morais Filho, no livro
“Festas e Tradições Populares do Brasil”,
afirma que a quadrilha já era tão popular em 1.853 que
tinha se transformado numa dança de corporações
profissionais, uma delas a dos barbeiros cariocas, que as executavam
nas Folias do Divino. A observação de Melo Morais Filho
é, por sinal, muito curiosa, pois fornece um dado importante
de como a quadrilha chegou às Festas Juninas. É só
olhar o calendário e observar que a Festa do Divino, em que se
comemora o Espírito Santo, é celebrada muito próximo
ao mês de junho e as datas dedicadas aos santos juninos. Por uma
questão de aculturação simples, aquela dança,
de forte apelo popular, rapidamente conquistou a imensa massa popular
que já fazia das festas de junho uma das suas maiores manifestações.
E a quadrilha chegou a São João, Santo Antônio,
e São Pedro, para não mais deixar.
ORIGEM
Hoje já se sabe que
a quadrilha, apesar de sua difusão através de cultura
francesa, tem origens um pouco diferentes. Estudos comparativos, realizados,
principalmente por pesquisadores musicais, colocam o nascimento da quadrilha
na INGLATERRA. Foi naquele país, por volta dos séculos
XII e XIV, que teria surgido uma dança popular, executada pelos
que trabalhavam no campo. Era uma dança camponesa, uma dança
roceira, uma dança rural. E o que é campo, roça,
rural em inglês? A resposta é “Country” e a
dança executada pelos camponeses era uma “country dance”
que nós poderíamos traduzir, ao pé da letra, em
português do Brasil, como sendo uma dança roceira, uma
dança rural e, por que não dizer uma dança caipira.
Na realização desta dança, os descendentes de celtas
e saxões executavam, na prática os velhos rituais pagãos
que ainda se mantinham vivos, apesar da Escócia, Irlanda, Gales
e Inglaterra já terem se cristianizado.
Eram ainda os rituais do solstício
do verão, as danças da fertilidade e o agradecimento a
deuses pela farta colheita, com o pedido de que a próxima semeadura
tivesse os mesmos resultados. Renato de Almeida, em sua monumental “História
da Música Brasileira”, diz textualmente: “Ela apareceu
no início do século XIX e, pela época da Regência,
fazia furor no Rio, trazida por mestres de orquestra de danças
francesas, como Milliet e Cavalier e Tolbecque...” A quadrilha
não só popularizou como dela apareceu várias derivadas
no interior. Assim a Quadrilha Caipira, no interior paulista (e em Minas),
o baile sifilítico na Bahia, e Goiás, a saruê (deturpação
de soirée), no Brasil Central e, porventura a mais interessante
dentre todas elas, a manca chica e suas variantes... Várias danças
do fandango praticam-se com marcação dequadrilha, da mesa
forma que o pericón e outros bailes guascas da campanha no Rio
Grande do Sul.
Nota-se que, numa coincidência
que a Sociologia e a História explicam muito bem, uma dança
nascida no meio do povo seis ou sete séculos atrás, voltou
ao povo em outro país, e etnia, mas praticamente conservando
a mesma função antropológica, social e cultural.
A Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra acabaria
levando a “contry dance” para França. Lá,
a palavra se afrancesou, transformando-se em “contredance”,
uma dança que os pares executavam a coreografia, frente a frente,
ou “vis-avis”. A “contredance” se aportuguesou
como “contradança” e Mário de Andrade a define
como “nome genérico de danças populares ou especificamente
da quadrilha, mas que implica a formação de pares em alas
opostas: a palavra é, provavelmente, derivada do “contry
dance” inglesa. Em dois séculos, a contradança perdeu
aquela sua característica camponesa e rural para tornar-se a
dança nobre por excelência, conquistando primeiramente
a corte francesa e, em seguida, todas as cortes européia, incluindo
a portuguesa. Chegou-se ao ponto de, no século 18, ela ter sido
a grande dança protocolar, de abertura dos bailes da corte.
A medida que ela foi se popularizando,
principalmente no Brasil e Portugal, o nome “quadrilha”
começou a ser usado, seguindo, aliás, uma terminologia
utilizada na Espanha e na Itália, onde identificava a contradança,
dançada por quatro pessoas. Desta “quadrilha de quatro”
derivou a “quadrilha geral”. No Brasil o nome se tornou
popular a ponto de em 1.842, Lopes da Gama escrever em quadrilha citada
por Maria Lira:
“O futuro das contra danças”.
por toda parte estende
a todo o gênero humano
a quadrilha compreende” |